Prof. Nelson Ribeiro: "Comunicar na era da desinformação participativa"

Quinta-feira, Abril 15, 2021 - 16:58

O modo como a comunicação é utilizada para moldar as perceções sobre a realidade ganha uma importância acrescida no presente, também em sequência do florescimento dos populismos.

Em tempos de pandemia, ressurgiu o interesse pelo impacto da comunicação na formação da opinião pública. Para muitos, o que corre mal na gestão da crise sanitária não são as medidas ou a falta delas, mas o modo como estas são comunicadas, como se a comunicação fosse uma espécie de panaceia que pode resolver todos os problemas. O lado positivo desta desmesurada crença no poder de comunicar é tão somente o facto de ter trazido de volta o debate sobre a importância de uma dimensão ética da comunicação pública, que garanta que os cidadãos possam formar a sua opinião, e a sua visão do mundo, baseados em factos e dados reais.

O modo como a comunicação é utilizada para moldar as perceções sobre a realidade ganha uma importância acrescida no presente, e não apenas devido à pandemia, mas também em sequência do florescimento dos populismos e da proliferação de estratégias de desinformação, capazes de colocar em causa a discussão de ideias, mas também empresas e negócios. Se é verdade que a informação falsa sempre desempenhou um papel de relevo na vida política e económica, hoje encontra no ambiente digital um aliado que lhe permite circular a alta velocidade. Um estudo liderado por Soroush Vosoughi, do MIT, sobre os padrões de difusão de 126 mil histórias publicadas no Twitter, concluiu que a falsidade chega significativamente mais longe, de modo mais rápido e circula de modo mais profundo, ou seja, gera um maior número de interações nos media sociais. Contudo, o que nos deve preocupar não é apenas a velocidade com que a mentira flui online, mas antes – e sobretudo – o facto de a desinformação contemporânea se alicerçar na participação de cidadãos que partilham conteúdos sem antes se assegurarem da sua veracidade e, no limite, sem sequer os terem lido.

Estamos, assim, perante um fenómeno de desinformação participativa em que a mentira não é produzida e disseminada apenas por um emissor que procura enganar os recetores mas, pelo contrário, as informações falsas são disseminadas com o apoio, inadvertido ou não, de pessoas anónimas, a que se juntam os bots e os perfis falsos que são hoje responsáveis por cerca de um quarto de todo o tráfego mundial online.

Este ambiente de desinformação participativa – em que todos podemos participar de modo inconsciente – obriga a que repensemos a forma como olhamos para o fenómeno da comunicação, que em muitos fóruns ainda é encarado como sinónimo de transmissão de informação, ignorando a dimensão relacional da comunicação sem a qual não será possível convencer os cidadãos ou os clientes da importância de uma mensagem. Por outro lado, a nível coletivo precisamos de apostar no desenvolvimento de uma verdadeira literacia informacional e mediática que nos ajude a construir uma sociedade em que os cidadãos estejam melhor preparados para distinguir o real do falso. Tal é importante em todas as dimensões da nossa vida em sociedade, da política à ciência, passando pelo mundo dos negócios e da convivência intercultural.

É, por isso, mais urgente do que nunca pensar nestes desafios e atuar para que seja possível combatê-los de forma (essa também) participativa. A Faculdade de Ciências Humanas, ciente desta realidade, acaba de reestruturar a sua licenciatura em Comunicação Social e Cultura, que ao longo de quase 30 anos tem formado cidadãos capazes de ajudar as empresas e a sociedade a lidar com os mais diversos desafios nos quais a comunicação desempenha um papel central. As novas variantes – Media e Jornalismo; Comunicação, Marketing e Relações-Públicas; Comunicação Audiovisual e Multimédia; e Comunicação Cultural e Turística – esperam formar especialistas nas várias subáreas, mas também cidadãos que ajudem a combater o atual cenário de desinformação participativa.

Em 1922, Walter Lippmann escreveu que “sob determinadas condições, as pessoas respondem tão fortemente a ficções quanto a realidades; e em muitos casos ajudam a criar as próprias ficções às quais elas respondem”. Evitar que este seja um retrato da sociedade do presente e do futuro deve ser o desiderato de todos aqueles que pugnam por uma comunicação alicerçada em valores éticos, capaz de gerar valor económico mas também social.

Por Nelson Ribeiro, Diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa

Ler o artigo de opinião no Observador aqui.