Após três semanas de guerra na Ucrânia, não há sinais de esperança sobre o fim do conflito. A Rússia continua a intensificar os ataques, mantendo o cerco a cidades, incluindo a capital Kyiv, e tentando estender a sua ocupação a oeste, depois das grandes investidas a nordeste e nos portos estratégicos no mar de Azov e no mar Negro. São chocantes as imagens de destruição de edifícios residenciais, escolas, instalações médicas, que incluem maternidades em Mariupol, Zhytomyr e Kharkiv. De acordo com números publicados pela imprensa internacional, mais de seis centenas de civis, incluindo crianças, terão já morrido nos ataques, e nem mesmo os corredores humanitários têm sido poupados. Estima-se que o número de feridos tenha atingido o milhar e que cerca de 2,5 milhões de pessoas tenham fugido do país, procurando refúgio; o maior êxodo na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. A catástrofe humanitária acarreta consequências sociais e económicas devastadoras, não apenas para a Ucrânia, mas também para o país ofensor – a Rússia – e para os Estados-membros da União Europeia.
O Presidente Biden continua a reiterar que não enviará tropas para solo ucraniano, em resposta à tentativa pelo regime autocrático russo de reclamar um espaço territorial que assume a ambição histórica de liderança euro-asiática, pois um conflito armado entre a NATO e a Rússia geraria uma terceira guerra mundial. A alternativa possível jaz no alinhamento e cooperação transatlântica na implementação de sanções draconianas que visam bloquear a capacidade industrial e bélica da Rússia e que constituem uma guerra nuclear económica. Assim, a expulsão de vários bancos russos do sistema de informações e pagamentos interbancários SWIFT, a proibição de transações com instituições financeiras russas, o bloqueio das reservas de capitais estrangeiros, a proibição de venda à Rússia de tecnologia e matérias-primas fundamentais, incluindo equipamentos aeronáuticos e da indústria de semicondutores, a proscrição de entrada de indivíduos e transportes russos no espaço aéreo europeu, a saída maciça de multinacionais que operavam na Rússia, o embargo ao petróleo russo pelos EUA, e a criação de uma task force transatlântica para identificação e congelamento de ativos de oligarcas próximos a Putin, têm o objetivo de quebrar os pilares internos do regime político e impedir a sustentabilidade económica do país.
Os efeitos adversos da guerra e das sanções impostas à Rússia não demoraram a sentir-se na Europa, que sofre agora o embate da escassez energética e a escalada de preços. De acordo com estatísticas publicadas pela União Europeia, cerca de 25% do petróleo, 38% do gás natural, e 45% do carvão importados pelos Estados-membros são de origem russa, constituindo uma dependência energética acentuada face à Rússia. No último ano, o Presidente Zelensky alertou a Chanceler Angela Markel para os perigos da dependência energética, afirmando que os gasodutos russos constituem uma arma estratégica poderosa. Mas o aviso não surtiu efeito. A Chanceler Merkel terminou o seu mandato e a Alemanha continuou a importar cerca de 40% do gás que consome à Rússia, sendo a dependência ainda mais acentuada noutros Estados-membros, v.g. no caso da Bulgária, Polónia, Áustria, Eslovénia, Eslováquia e Hungria.
Neste cenário, o preço do gás quadruplicou, o preço do petróleo bruto Brent atingiu o valor mais alto desde 2008, e a pressão inflacionária acentuada impõe um desafio de resiliência a setores já profundamente afetados pelas disrupções nas cadeias de distribuição resultantes da Pandemia. A União Europeia, com o apoio dos EUA, está a adotar medidas drásticas de emergência, tentando reverter a dependência energética da Rússia, através da diversificação de importações e do reforço da aposta nas energias renováveis, com ênfase na narrativa de autonomia.
Neste processo de viragem estratégia, precipitam-se eventos políticos que acarretam perdas para alguns atores internacionais e novas oportunidades para outros. A indisponibilidade dos Emiratos Árabes Unidos e da Arábia Saudita para colaborar com os EUA na contenção dos preços da energia, aumentando a produção de petróleo, contribuíram para reposicionar a geopolítica no Médio Oriente, enaltecendo a posição do Irão. Também a Venezuela voltou ao palco de negociações internacionais, após anos de sanções, e a Turquia, a Polónia e a Hungria assumiram novo centralismo na política regional, pela sua posição na linha frente, apesar das críticas pelos decisores europeus às tendências nacionalistas destes países.
O cenário atual mostra-nos como a Política e a Economia estão intrinsecamente interligadas, e como, no palco internacional do equilíbrio de poderes, os grandes atores prosseguem o interesse nacional e a sua própria sobrevivência doméstica, com custos externos (e por vezes internos) muito elevados. Ainda que o cenário ideal de total cessar-fogo na Ucrânia estivesse à vista, o lastro da ocupação russa permanecerá numa espécie de Guerra Fria II. Neste contexto internacional, mais uma vez, a China assume um lugar central, ainda que discreto, uma vez que é o único país com dimensão para oferecer alternativas de integração financeira e económica à Rússia, perante o bloqueio causado pelas sanções ocidentais.
Perante as incertezas e possíveis alterações de alinhamento de poderes a nível internacional e regional, a análise “preemptiva” de risco político deve assumir um lugar estratégico na liderança pública e empresarial. A volatilidade do sistema internacional acarreta acentuado risco e incerteza nos mercados globais, que devem ser compreendidos pelos decisores políticos e económicos.
O entendimento das dinâmicas de segurança nacional e das alianças que se formam em busca de equilíbrios de poderes será crítico para a resiliência económica de setores causticados pela fatalidade da Pandemia e pela falha de previsão da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Ana Evans, Professora Convidada de Relações Internacionais, Licenciatura PPE, Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa
Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder.